A TV da Classe C: o que os brasileiros estão assistindo?

 

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Telespectadores: Quem são? O que representam? Do que gostam? Esta não é mais uma matéria do “Globo Repórter”, mas sim, o que queremos revelar sobre a realidade da atual TV brasileira, a começar pela simples pergunta: quem é que assiste TV aberta? Aposto que você acabou de pensar naquela série da Netflix ou no Premier da TV por assinatura. Mas depois, se lembrou que, de vez em quando, você ainda dá “boa noite” pro Bonner.

Sim, a TV não morreu, e nem vai tão cedo. Representada hoje por 52% da população brasileira, a ‘Classe C’ é composta pelas pessoas que possuem renda que varia entre R$ 214,00 e R$ 923,00. Eles são a maioria no país, e têm a televisão como fonte de entretenimento simples e de baixo custo.

Não é à toa que esta (maior) parte da população tem despertado cada vez mais o interesse de gigantes, como a Rede Globo. Para aproximar seu conteúdo à realidade destes telespectadores, a emissora já vem reestruturando sua programação.

O público, antes acostumado em ver apenas o luxo dos bairros elitizados do Rio de Janeiro e São Paulo, agora passa a assistir histórias semelhantes à sua realidade, em bairros simples e favelas. Tal reestruturação não se baseia apenas em oferecer o que a maioria deseja, mas sim, em se adequar à nova realidade.

Há tempos, a TV brasileira vê sua audiência despencar, seja por causa da TV paga ou dos serviços de streaming, como a Netflix. Este meio de transmissão de dados de áudio e vídeo é feito através de redes, de maneira instantânea. Segundo a própria Netflix, que faz mistérios sobre a sua audiência, o streaming é capaz de proporcionar ao telespectador uma experiência diferente e muito melhor do que a TV tradicional, DVDs ou download de filmes.

Embora não seja novidade, este tipo de serviço só ganhou notoriedade no Brasil nos últimos anos, devido à melhora na velocidade de conexão e a popularização da internet. A facilidade do acesso à internet tem afetado não apenas a TV aberta, mas também a TV a cabo, que só no ano passado, viu seu número de assinantes subtrair em um milhão de pessoas.

Diante este cenário “catastrófico”, você deve estar se perguntando: mas o que sobra para a TV aberta? Mesmo com a programação altamente atrativa da TV por assinatura, e das facilidades do serviço de streaming, a TV tradicional continua sendo uma das formas mais fáceis e baratas de se divertir.

Como já dito, a indústria do entretenimento vem mudando sua programação para se aproximar da realidade social e cultural do seu novo consumidor: a Classe C. Nos últimos anos, assistimos a Rede Globo ir substituindo títulos como “Páginas da Vida” e “Fina Estampa” por “Avenida Brasil”, “Sangue Bom” e “I Love Paraisópolis”. O que estas três últimas têm em comum? A trama e seus personagens principais buscam retratar a realidade da maioria dos brasileiros.

O programa comandado por Regina Casé é outro indício da reestruturação feita pela emissora, na tentativa de quebrar sua imagem elitista. Ao som do funk, pagode e muito samba no pé, o “Esquenta” trazia atrações voltadas para a periferia do RJ. Nos últimos programas, porém, notamos também uma inclusão de duplas sertanejas, para ganhar os telespectadores do estado de SP.

E por falar na Rede Globo, não é segredo para ninguém que ela continua sendo líder no Ibope. Mas no ano passado, a emissora viu sua novela das 21h (“A Regra do Jogo”) dividir seu público com “Os Dez Mandamentos” (Rede Record), que bateu recordes de audiência. Além destas duas, outra novela se destacou em 2015 no Ibope: “Verdades Secretas” (Rede Globo) abordou temas polêmicos; como intrigas, drogas, sexo e muita nudez, o que foi garantia de sucesso.

No ar há mais de 20 anos, o “Fantástico” também foi um dos programas da Globo mais assistidos no ano passado. Trazendo um resumo de notícias da semana com abordagens mais aprofundadas, o programa também traz séries de humor e entretenimento. Fausto Silva é outro que se manteve no topo com o “Domingão do Faustão”; quadros como “Dança dos Famosos” e as “Vídeo Cassetadas” prendem os telespectadores que buscam um pouco de diversão no último dia do fim de semana.

Outra aposta bem sucedida da Globo em 2015 foi o “The Voice Brasil”. Importado dos Estados Unidos, o programa traz calouros desconhecidos e jurados famosos, além de muitos comentários nas redes sociais que, sendo bons ou não, dão o que falar. E cá entre nós: Quem é que não ama estar nos “Trending Topics”?

Mas a Globo não foi líder absoluta. Além da novela bíblica da Record, a Band também possui atrações de sucesso. O “Pânico na Band” traz a soma perfeita: mulher de biquíni + humor escrachado e sem noção do tipo “é isso que o povo gosta”. Com fama internacional, o “Masterchef Brasil” é sempre um dos assuntos mais comentados no Twitter (quando em exibição). Com grande envolvimento do público, o reality de culinária também se manteve no topo.

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Indo na contramão, alguns clássicos da Globo têm registrado queda nos valiosos pontos do Ibope. O “Mais Você” não está somando muita coisa; o “Bem Estar” anda passando mal; e a “Malhação” perdeu sua força. Para a Record, o fim de “Os Dez Mandamentos” acabou com o mar de rosas, e o programa “Xuxa Meneghel” também não fez a lua de cristal da emissora brilhar.

O que podemos esperar para o ano de 2016 é uma briga cada vez mais acirrada pela audiência na TV. Afinal, convenhamos: que atire a primeira pedra quem nunca baixou um filme na internet ou assistiu uma série online só pra não precisar assistir os comerciais.

Engana-se quem pensa que este “vale-tudo” vai se limitar apenas aos canais abertos. As operadoras de TV paga pedem a Ancine (Agência Nacional do Cinema) que crie um marco regulatório exigindo que a Netflix cumpra a mesma ordem de exibir 3h30 de programação nacional por semana. A Anatel já adiantou que seria algo difícil de regulamentar. Por enquanto, não há nada definido.

Todo o esforço da TV é genuíno, mas a verdade é que o brasileiro, que sempre adorou assistir baixaria (BBB que o diga), está se tornando mais seleto e informado. Tudo graças a quantidade de conteúdo ao alcance de suas mãos.

Para a publicidade, fica o desafio de usar a criatividade para criar canais atrativos dentro deste novo modelo de consumir conteúdo.

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